quarta-feira, 17 de julho de 2013

Crítica: Na Estrada

Por José Geraldo Couto para o Instituto Moreira Salles, 13/7/2012.
(On The RoadFRA/GBR/USA/BRA, 2012)

Aventura, Drama
DireçãoWalter Salles
Elenco
Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Tom Sturridge, Alice Braga, Terrence Howard
RoteiroJack Kerouac (livro), Jose Rivera
Duração: 124 min.
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A estrada para a América*

A crítica mais frequente que tenho ouvido a Na estrada é a de que a versão de Walter Salles para o clássico beat de Jack Kerouac é demasiado clean, elegante e, no limite, fria. Talvez seja essa a percepção dos leitores fanáticos do livro ou daqueles que tiveram sua vida marcada por ele. Não é o meu caso.
Nunca mergulhei de fato na cultura beat, nem fui impregnado por ela – e peço licença para usar a primeira pessoa porque se trata aqui de um livro e de um filme cuja apreensão tem muito a ver com a dimensão subjetiva, com as tais vivências pessoais. É preciso lembrar que os livros de Kerouac, Burroughs, Ginsberg e companhia chegaram ao Brasil com pelo menos duas décadas de atraso. Refiro-me à tradução das principais obras, pois poucos foram os brasileiros que leram os originais na época (fim dos anos 50). Foi uma onda que já chegou aqui arrefecida, filtrada e, em certa medida, ressignificada pelo que veio de entremeio, dos anos 60 aos 80.

A América pelas bordas

Foi portanto dessa perspectiva – a de alguém que contempla o universo beat a uma certa distância – que fui ver Na estrada. E gostei muito. Mais do que como um inventário de transgressões – que, ao que parece, era o que muitos esperavam –, recebi o filme como uma tentativa de penetrar na América a partir das suas bordas (os negros, os latinos, os gays, os loucos, os desajustados de toda ordem). A busca de um outro American way of life, centrado não na família tradicional, no consumo e no medo do “outro” (seja este o comunista, o estrangeiro ou o extraterrestre), mas sim no movimento contínuo, na descoberta de novas formas de percepção, na construção de novos laços de afeto.
Desse ponto de vista, o filme tem tudo a ver com a sensibilidade de Walter Salles, cuja filmografia, de Central do Brasil a Diários de motocicleta, é marcada pelo deslocamento e pela busca. Sua pátria é a estrada, sua figura de estilo mais marcante é o travelling para a frente.
Criticou-se uma suposta assepsia da imagem, certa timidez ou pudicícia nas cenas de sexo. Uma amiga querida sugeriu, brincando, que o filme deveria ter sido feito por Cláudio Assis. Aceitando a brincadeira e seguindo na especulação, penso que uma versão de Assis talvez ganhasse intensidade e calor no lado “podreira” da história. Mas por certo haveria uma perda em muitos outros aspectos. Pois a sensibilidade literária e humana de Kerouac não foi formada apenas por Céline, mas também por Proust, como o filme sublinha visualmente a todo momento. Havia fúria naquele jorro vital, mas também sutileza e refinamento.
Há que lembrar ainda que Na estrada foi produzido por Francis Coppola, e talvez um tanto do filtro clean venha daí. Deu-se algo análogo, com resultados menos satisfatórios, quando ele produziu o primeiro filme americano de Wim Wenders, Hammett: o universo duro e sujo do escritor noir ganhou uma aura cool, maneirista, a um passo da estética publicitária. O trailer de Hammett não me deixa mentir:


Em comum entre os dois filmes, a consciência de que se está lidando com uma realidade “em segundo grau”, mediada por décadas de leituras e interpretações. São, ambos, retratos de mitologias. No caso, de mitologias centrais da América moderna.

Pulsação musical

Walter Salles, a meu ver, dribla a contento o risco de resvalar para o maneirismo e o excesso de estetização. Prova disso são as magníficas cenas musicais. Servindo-se de sua experiência como documentarista, o diretor confere às apresentações de jazz e blues um calor e uma pulsação que me parecem mais intensos e menos artificiais do que os do belo Cotton Club, do próprio Coppola. A sequência de Salt peanuts, o clássico bebop de Dizzy Gillespie, é especialmente contagiante. Para o leitor que gosta de jazz, aqui vai, de brinde, uma apresentação da música por seu autor, em 1947:


Não deixa de ser significativo, aliás, que o último encontro, no filme, de Sal Paradise (Sam Riley) com Dean Moriarty (Neal Cassady) aconteça quando o primeiro, elegantemente vestido, prepara-se para ir a um show de Duke Ellington. Momentaneamente aburguesado, Paradise trocou os inferninhos esfumaçados pelas salas de concerto, e as dissonâncias transgressivas do bebop de Charlie Parker pelo som mais clássico de uma big band da era do swing. Sutilezas, enfim.

* Disponível em: http://www.blogdoims.com.br/ims/a-estrada-para-a-america/

terça-feira, 16 de julho de 2013

Crítica: O Que é Isso, Companheiro?

Por Andrea Ormond para Estranho Encontro, 10/1/2011
(O Que é Isso, Companheiro?, BRA, 1997)

Thriller, Drama
DireçãoBruno Barreto
Elenco
Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Alan Arkin, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu
RoteiroLeopoldo Serran, Fernando Gabeira (livro)
Duração: 110 min.









IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0119815/
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O Que é Isso, Companheiro?* 

O roteirista Leopoldo Serran faleceu no dia 20 de agosto de 2008, e pouca gente se deu conta de que o efeito da perda equivale a um maremoto. Em entrevista de 2001, concedida a Marco Freitas, Serran afirmava: “Nós estamos passando por uma ideologização e idealização de tudo. Ideologizaram a cultura, a religião, e ideologia, como se sabe, é a arma dos débeis mentais. É uma coisa triste...”.
A frase, polêmica e deliciosa, serve de provocação a seu trabalho em O Que é Isso, Companheiro? (1997), baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, direção de Bruno Barreto. Ao contrário do que muitos repetem (sob prisma ideológico, sectário) o filme de Barreto não chega a ser propriamente escândalo, ou afronta histórica. É apenas daquelas coisas que Barreto tenta, tenta, mas erra, desde o excelente Romance da Empregada (1987). Além disso, a obra de Fernando Gabeira, repleta de um dialeto ultrapassado, cheia de gírias que morreram antes das fronteiras de Ipanema, igualmente não ajuda.
Serran bem que se esforça para desidratar a metralhadora narcisista, auto-referencial, pseudo-psicanalítica, que é o texto do ex-guerrilheiro, lançado pela editora do Pasquim, a Codecri, em 79. Sobre Gabeira vale engrossarmos o lugar comum: toda a sua transição (ideológica) daria em cinebiografia bem mais interessante que o episódio do sequestro. Nasceu militante do MR-8, nas janelas da antiga sede do Jornal do Brasil; voltou do exílio em vibe odara, pansexual (sua fase ótima); e, de alguns anos pra cá, confundiu o discurso da vanguarda ecológica com o de liberal capitalista. Percebam que nem Arnaldo Jabor ou Paulo Francis mudaram tanto de opinião no simples espaço de uma vida.
É do Gabeira jovenzinho, chegado de Minas em 63, que livro e filme tratam. Um moço com ar de existencialista, no alter-ego Paulo (Pedro Cardoso), a quem o compêndio sobre aventuras da revolução parecia já estar sendo escrito antes mesmo do primeiro tiro. Engraçado é que Cardoso, ator sem muitos recursos, insere em Gabeira certos tiques de seu personagem sessentista anterior: o maluco-beleza Galeno, da minissérie Anos Rebeldes, exibida na Globo em 92.
“Estamos completando seis meses de imprensa censurada, a extrema direita se instalou no país e não dá nenhum sinal de que vai sair. Nós queremos saber, Arthur (Eduardo Moscovis), o que você pretende fazer a respeito?”. É com essa frase, batendo recordes nos marcadores de vergonha alheia, que Gabeira/Galeno dá a senha para o início da luta armada. Pretende arregimentar o amigo, e o amigo prefere sobreviver como ator em uma peça de Ibsen. Junto com Paulo vai César (Selton Mello), que também discursa uma cantilena impostada, no apartamento emoldurado por um pôster de Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Sem nunca ter matado nem passarinho, mergulhando na clandestinidade, Paulo e os colegas descobrirão uma verdade incômoda: revoluções armadas oferecem risco de vida, geram mortes, separam famílias. A delicadeza dos garotos de classe média, em um primeiro momento, parece não combinar com aquilo. Mas eles estão dispostos a ir até o fim, treinando com o casca grossa Marcão (Luis Fernando Guimarães, pose irônica, rediviva da TV Pirata) e com Maria (Fernanda Torres), outra campeã em explicações didáticas.
Nem o roteiro nem a maneira como Barreto o filma concebem aquele bando inexperiente, vacilante, com alguma fagulha de heroísmo romântico. Sua posição heroica será forjada, sim, pela história, pelo futuro – como Fidel Castro desenhou no célebre discurso, quando da sua prisão e julgamento, 1953-54. Neste vagar de sentimentos, de angústias e esperanças, eles decidem por uma ação ousada: o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick (Alan Arkin), para a troca de 13 presos políticos.
A convivência com o sequestrado, a chegada de companheiros mais experientes – Toledo (Nelson Dantas) e Jonas (Matheus Nachtergaele) – transformam-se em reles pano de fundo para uma historinha de ação, suspense. O interrogatório do embaixador – a cargo de Jonas, que aponta uma arma na cabeça do homem, tentando enquadrá-lo – nos faz sonhar com uma esplêndida participação especial de Jece Valadão, soltando um “shut up, gringo” e mostrando toda a malícia e o veneno da luta anti-imperialista nacional. Infelizmente, em 97, o cinema brasileiro já seguia frouxo.
Baixíssima densidade psicológica salva a narrativa de mergulhar no distorcido protagonismo de Gabeira. Mesmo assim, a verossimilhança do filme sofreu críticas por várias testemunhas dos fatos, ao que Barreto responderia sofismando tratar-se de obra de “ficção” (?). Já Serran, na supracitada entrevista de 2001, afirma sobre as esquerdas: “(...) essa gente anda em bando, tentando me aporrinhar a vida...”.
Ponto para ambos terem ficado em saia justa: ora patrulhados por quem julgava a história uma ode aos sequestradores, ora por quem cheirava naquilo “higienização” da realidade, edulcoração quase hollywoodiana, bem ao gosto da retomada do cinema brasileiro na metade dos anos 90. E, enquanto se discutia nos corredores universitários, nas salas de aula da PUC, se o filme era de direita, esquerda ou de ladinho, ninguém atinou o meio-termo de que, por ser fraquíssima, água morna, a produção nem tem fôlego para uma tomada honesta e declarada de posição.
Sensacionalismo erótico – Reneé (Cláudia Abreu, outra egressa de Anos Rebeldes) dorme com o chefe de segurança da embaixada (Milton Gonçalves); a conversa de torturadores sobre uma torturada que casou com seu algoz – mescla-se ao desamparo infantil de Maria. Acaba aos beijos com Paulo, a dizer que nem todo a utopia do mundo resolveria sua carência de afeto. Filmes esquecíveis são feitos desta matéria mal digerida, instantâneos e colagens grotescas, absurdas.
Ao lado de A Paixão de Jacobina (2002), descobrimos o pior trabalho escrito por Serran. Talvez por não acreditar no sonho (na ideologia) dos garotos, talvez por não conseguir desconstruí-la de modo satisfatório ou talvez pelas amarras impostas por um aparato de esforço oscarizável, despacho de umbanda para Hollywood. São ilações que nutrem uma certeza: quanto mais os anos passam, o cruel e paranoico Pra Frente Brasil (1983) melhora a olhos vistos. Já O que é Isso, Companheiro? e meia dúzia recentes – que tal Em Teu Nome (2009)? – montam coleção jabuticaba, de como não se olhar uma passagem que ainda é ferida aberta no país.

Disponível em: http://estranhoencontro.blogspot.com.br/2011/01/o-que-e-isso-companheiro.html