quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Crítica: Sinfonia em Paris

Por Vinicius de Moraes para o Última Hora, 29/4/1952.
(An american in Paris, USA, 1951)

Musical, Romance
DireçãoVincente Minnelli
ElencoGene Kelly, Leslie Caron, Oscar Levant, Georges Guétary, Nina Foch
RoteiroAlan Jay Lerner
Duração: 113 min.









IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0043278/
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Foi muito Oscar demais*

Depois de um mês em Minas praticamente sem cinema (ou melhor, só cuidando de fazê-lo) fui ver este Sinfonia de Paris (An American in Paris), inspirado na famosa e fuleiríssima peça do mesmo nome, da autoria do compositor George Gershwin.
Eu não sei se acontece com todo o mundo o que aconteceu comigo. A primeira vez que ouvi George Gershwin, ainda rapazinho, foi num filme que fez época e no qual foi lançada a sua ainda mais famosa Rhapsody in Blue; o executante era Paul Whitman, e havia grandes ângulos cinematográficos de clarinetas sexuadas uivando ritmos lancinantes, aproximações e recuos da câmera sobre grupos de metais contrapontados, ganidos luxurientos, entrechoques da seção de ritmos subitamente criando silêncios doridos que davam para visualizar mulheres em ruas desertas a dançar poses fulgurantes de exaltação amorosa. À testa de tudo isso, Paul Whitman e a sua careca luzida. 
Aqueles acordes ascencionais da música de Gershwin passaram a ser para mim a própria expressão do moderno, do jazz transubstanciado em música. Frequentemente, quando queria dar forma a algo inexprimível, era à claridade inicial da Rapsódia azul que recorria. Não conhecia ainda a palavra sofisticação, mas era evidente que havia muito rato nas minhas águas furtadas porque a verdade é que todos os seus gatos miavam quando aquele grito instrumental, penetrando do patheos da grande cidade, subia em exaltadas espirais suplicantes. 
Depois eu fiquei mais velho, comecei a escutar bom jazz e boa música clássica com um ouvido mais atento e menos sentimental. O resultado é que hoje em dia acho George Gershwin talvez o melhor dos três piores músicos do mundo. O melhor sim; porque sinceramente prefiro uma Rapsódia azul ou um Americano em Paris a, por exemplo, um Concerto de Varsóvia.
Por isso acho o esforço da MGM de modo meritório ao criar alguns bons ballets gênero super-sofisticado - isto é: bons enquanto a gente os vê, porque nos esquecemos de todo aquele vazio e inútil fulgor - sobre uma música tão ruim quanto a de Gershwin. Gene Kelly, de resto, lá está para emprestar-lhe a vitalidade da sua dança viril e espontânea. Kelly de há muito afirmou-se como o melhor bailarino do cinema depois de Astaire, de cujo estilo, aliás, difere bastante e a quem em quase nada imita. O filme conta também com muito sofisticado wit americano, o pianista Oscar Levant, que foi na vida real cupincha mesmo de fato de Gershwin - o que não o recomenda, pois a lenda conta que o compositor era urna reverendíssima besta.
A garota Leslie Caron tem uma carinha moderna, com o teclado um pouco fora, e dança a contento os ágeis bailados sobre a música deste grande palito-de-jacaré do jazz negro que foi Gershwin. 
Se não sabem o que é palito-de-jacaré, eu explico. Trata-se de um passarinho do Amazonas que ganhou esse apelido porque os jacarés com grande complacência deixam-no palitar-lhes os dentes com o bico dos restos de carne que se grudam nos seus vastos incisivos. George Gershwin faz mais ou menos isso com os jacarés do jazz negro. 
A decoração é em geral boa, copiando pintores impressionistas e modernos da escola de Paris como Renoir, Utrillo, Dufy, etc. A seqüência da dança de Kelly feita sobre os famosos cartazes de Toulouse-Lautrec e das melhores coisas do filme. Há na produção visível e muito louvável tendência para o bom gosto, apesar de frequentemente o comercialismo hollywoodiano pôr tudo a perder com o seu exagero e a sua desmedida ambição de agradar o público. 
De qualquer modo é forte tantos "Oscares" para uma arte tão de araque. Eu, por mim, apesar da grandiosidade do filme, preferi, por mais discreto, o já passado O pirata, também dirigido por Vincent Minnelli e com Gene Kelly e Judy Garland nos principais papéis, coisa que provavelmente me valerá a pecha do burro por parte de menininhos neuróticos sofisticados de Copacabana e outros subúrbios da zona sul desta Capital esplêndida.

Disponível em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/cinema/foi-muito-oscar-demais

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crítica: Invictus

Por José Geraldo Couto para a Folha de S. Paulo, 6/2/2010.
(Invictus, USA, 2009)

Drama, Biografia
DireçãoClint Eastwood
ElencoMorgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Scott Eastwood, Robert Hobbs, Leleti Khumalo
RoteiroAnthony Peckham
Duração: 133 min.









IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1057500/
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Quase invicto*

Há várias maneiras de abordar a obra de Clint Eastwood em seu conjunto.
Uma delas seria a constatação de que ele alterna filmes sobre cidadãos comuns, quase anônimos, colhidos em situações-limite, a outros protagonizados por personagens reais "maiores que a vida", como o cineasta John Huston (Coração de Caçador), o músico Charlie Parker (Bird) e, agora, o líder sul-africano Nelson Mandela (Invictus).
Outra abordagem possível seria a maneira como sua filmografia constrói e questiona a figura do herói (sobretudo americano) contemporâneo, ou seja, o indivíduo reto, justo, que se defronta com um mundo torto e se vê compelido a agir para consertá-lo.
Um terceiro viés, estreitamente ligado ao anterior, seria a relação do cineasta com a morte. Na primeira metade da sua carreira, sobretudo como ator, Clint Eastwood saía despreocupadamente matando "bad guys", como se o extermínio do malfeitor pudesse eliminar o próprio mal.
A segunda parte de sua filmografia é, de certa forma, uma expiação dessa culpa, ou pelo menos um acerto de contas.
A partir de um certo momento (digamos, de Coração de Caçador, ou, mais marcadamente, de Os Imperdoáveis) a morte do outro, qualquer que seja ele, passa a ter uma densidade até então inédita, uma dimensão religiosa ou no mínimo metafísica.
Matar alguém passa a ser um fardo insuportável. O Bill Munny de Os Imperdoáveis é um homem infeliz porque condenado a matar. O personagem de Sean Penn sofre uma barbaridade ao "justiçar" seu amigo de infância (Tim Robbins) em Sobre Meninos e Lobos. O mesmo se passa com o treinador de boxe ao abreviar caridosamente a vida de sua Menina de Ouro. Estamos aqui a anos-luz da quase euforia com que o policial Dirty Harry distribuía tiros e porradas.
Nessa visão panorâmica, onde entra Invictus?

Herói de nosso tempo

A escolha de Nelson Mandela como protagonista obviamente não foi casual. Tampouco parece ter sido simplesmente a trajetória de vida espetacular de Mandela o que atraiu o cineasta. Ele não fez uma cinebiografia oportunista como a de Gandhi por Richard Attenborough ou a de Lula por Fabio Barreto. Baseado no livro de John Carlin, concentrou-se em dois momentos cruciais: a posse de Mandela no primeiro governo pós-apartheid (maio de 1994) e a Copa do Mundo de Rúgbi na África do Sul, em maio/junho de 1995. (Uma das astúcias do filme, por meio de elipses imperceptíveis, é fazer esses dois momentos parecerem contíguos.)
O primeiro momento, a meu ver, é mais forte do que o segundo. Seu eixo, ou antes sua força motriz, é a tensão racial, o desafio que o protagonista terá que vencer. Os séculos de ódios e conflitos aparecem condensados de maneira esplêndida: o atrito aflora entre os funcionários do palácio do governo, solta faíscas entre os seguranças do presidente, é sublimado na casa do capitão do time de rúgbi. Cada cena, cada diálogo, atualiza e reverbera essa tensão primordial.
Sem resvalar para o solene ou o pomposo, Invictus comunica em seu próprio ritmo, em sua respiração por assim dizer, a grandeza do momento histórico.
A segunda parte do filme, que grosso modo se concentra na campanha do time na copa do mundo de rúgbi, implica um certo estreitamento narrativo. Tudo conflui para uma espécie de fórmula básica das "sagas de vitória" contadas a granel pelo cinema, de Rocky a Carruagens de Fogo, de Gran Prix a Karatê Kid.
Claro que tudo é filmado com muita classe e há momentos inspirados, como a visita dos jogadores à prisão onde Mandela tinha estado, ou o voo rasante de um avião sobre o estádio da final, mas a sensação geral é de dejà vu, pela alternância previsível de de tropeços e triunfos, de perigos e superações, que pavimentam a narrativa com a certeza teleológica da vitória final.
Mas o que eu queria destacar aqui é a significativa escolha de Mandela como protagonista. É tentador achar que Clint fala de Mandela pensando em Obama, outro líder negro convocado a unificar uma nação e superar atritos seculares.  Tentador, mas simplista.
Prefiro ver a opção Mandela como o coroamento do processo de questionamento do herói na obra do cineasta. Para ele, Mandela é o herói possível e necessário de nosso tempo. Em vez do macho justiceiro e truculento dos primeiros westerns e policiais, um homem sábio e doce, capaz de estender a mão ao inimigo para construir uma sociedade melhor. No mundo conflagrado em que vivemos, eivado por fundamentalismos e intolerâncias, não conheço perspectiva mais revolucionária.

Disponível em: http://blogdozegeraldocouto.folha.blog.uol.com.br/arch2010-01-31_2010-02-06.html