(Invictus, USA, 2009)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Scott Eastwood, Robert Hobbs, Leleti Khumalo
Roteiro: Anthony Peckham
Duração: 133 min.
[BluRay-RiP 720p] - Download
- Tamanho: 851 MiB (MP4)
- Idioma do Audio: Inglês
- Legendas: Anexa ao Post (PT-BR)
- Resolução: 1280 x 528
Quase invicto*
Há várias maneiras de abordar a obra de Clint Eastwood em seu conjunto.
Uma delas seria a constatação de que ele alterna filmes sobre cidadãos comuns, quase anônimos, colhidos em situações-limite, a outros protagonizados por personagens reais "maiores que a vida", como o cineasta John Huston (Coração de Caçador), o músico Charlie Parker (Bird) e, agora, o líder sul-africano Nelson Mandela (Invictus).
Outra abordagem possível seria a maneira como sua filmografia constrói e questiona a figura do herói (sobretudo americano) contemporâneo, ou seja, o indivíduo reto, justo, que se defronta com um mundo torto e se vê compelido a agir para consertá-lo.
Um terceiro viés, estreitamente ligado ao anterior, seria a relação do cineasta com a morte. Na primeira metade da sua carreira, sobretudo como ator, Clint Eastwood saía despreocupadamente matando "bad guys", como se o extermínio do malfeitor pudesse eliminar o próprio mal.
A segunda parte de sua filmografia é, de certa forma, uma expiação dessa culpa, ou pelo menos um acerto de contas.
A partir de um certo momento (digamos, de Coração de Caçador, ou, mais marcadamente, de Os Imperdoáveis) a morte do outro, qualquer que seja ele, passa a ter uma densidade até então inédita, uma dimensão religiosa ou no mínimo metafísica.
Matar alguém passa a ser um fardo insuportável. O Bill Munny de Os Imperdoáveis é um homem infeliz porque condenado a matar. O personagem de Sean Penn sofre uma barbaridade ao "justiçar" seu amigo de infância (Tim Robbins) em Sobre Meninos e Lobos. O mesmo se passa com o treinador de boxe ao abreviar caridosamente a vida de sua Menina de Ouro. Estamos aqui a anos-luz da quase euforia com que o policial Dirty Harry distribuía tiros e porradas.
Nessa visão panorâmica, onde entra Invictus?
Herói de nosso tempo
A escolha de Nelson Mandela como protagonista obviamente não foi casual. Tampouco parece ter sido simplesmente a trajetória de vida espetacular de Mandela o que atraiu o cineasta. Ele não fez uma cinebiografia oportunista como a de Gandhi por Richard Attenborough ou a de Lula por Fabio Barreto. Baseado no livro de John Carlin, concentrou-se em dois momentos cruciais: a posse de Mandela no primeiro governo pós-apartheid (maio de 1994) e a Copa do Mundo de Rúgbi na África do Sul, em maio/junho de 1995. (Uma das astúcias do filme, por meio de elipses imperceptíveis, é fazer esses dois momentos parecerem contíguos.)
O primeiro momento, a meu ver, é mais forte do que o segundo. Seu eixo, ou antes sua força motriz, é a tensão racial, o desafio que o protagonista terá que vencer. Os séculos de ódios e conflitos aparecem condensados de maneira esplêndida: o atrito aflora entre os funcionários do palácio do governo, solta faíscas entre os seguranças do presidente, é sublimado na casa do capitão do time de rúgbi. Cada cena, cada diálogo, atualiza e reverbera essa tensão primordial.
Sem resvalar para o solene ou o pomposo, Invictus comunica em seu próprio ritmo, em sua respiração por assim dizer, a grandeza do momento histórico.
A segunda parte do filme, que grosso modo se concentra na campanha do time na copa do mundo de rúgbi, implica um certo estreitamento narrativo. Tudo conflui para uma espécie de fórmula básica das "sagas de vitória" contadas a granel pelo cinema, de Rocky a Carruagens de Fogo, de Gran Prix a Karatê Kid.
Claro que tudo é filmado com muita classe e há momentos inspirados, como a visita dos jogadores à prisão onde Mandela tinha estado, ou o voo rasante de um avião sobre o estádio da final, mas a sensação geral é de dejà vu, pela alternância previsível de de tropeços e triunfos, de perigos e superações, que pavimentam a narrativa com a certeza teleológica da vitória final.
Mas o que eu queria destacar aqui é a significativa escolha de Mandela como protagonista. É tentador achar que Clint fala de Mandela pensando em Obama, outro líder negro convocado a unificar uma nação e superar atritos seculares. Tentador, mas simplista.
Prefiro ver a opção Mandela como o coroamento do processo de questionamento do herói na obra do cineasta. Para ele, Mandela é o herói possível e necessário de nosso tempo. Em vez do macho justiceiro e truculento dos primeiros westerns e policiais, um homem sábio e doce, capaz de estender a mão ao inimigo para construir uma sociedade melhor. No mundo conflagrado em que vivemos, eivado por fundamentalismos e intolerâncias, não conheço perspectiva mais revolucionária.
* Disponível em: http://blogdozegeraldocouto.folha.blog.uol.com.br/arch2010-01-31_2010-02-06.html

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