domingo, 4 de agosto de 2013

Crítica: O Bandido da Luz Vermelha

Por Inácio Araújo para a Coleção Aplauso.
(O Bandido da Luz Vermelha, BRA, 1968)

Thriller, Policial
DireçãoRogério Sganzerla
Elenco
Paulo Vilaça, Helena Ignez, Luiz Linhares, Sérgio Hingst
RoteiroRogério Sganzerla
Duração: 92 min.









IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0144782/
Assista ao Trailer: YouTube

[DVD-RiP] - Download
  • Tamanho: 1,09 GiB (AVI) + 1,32 GiB (EXTRAS)
  • Idioma do Audio: Português
  • Legendas: Sem legenda 
  • Resolução: 512 x 384

O Bandido da Luz Vermelha* 

Se uma das características centrais de O Bandido da Luz Vermelha é a vivacidade, a capacidade de captar os tipos, modos de falar, de comunicar e mesmo os gestos das pessoas de uma cidade como São Paulo no fim dos anos 60 do século passado, a suposição imediata é de que a improvisação fosse sua marca. 
Engano. Já na leitura do roteiro percebe-se o tom inquieto, de reportagem, que caracterizaria o filme concluído. Até as indicações de câmera inclinada foram pensadas previamente, como se Rogério Sganzerla conseguisse visualizar durante a elaboração do roteiro as imagens que pretendia criar.
Mesmo o caráter sinfônico do Bandido, em que sons, vozes, letreiros luminosos, música misturamse surgem já no texto, denotando a proximidade do filme com suas referências mais estridentes, Orson Welles e Jean-Luc Godard. Talvez fosse possível acrescentar aqui um terceiro nome - mais um cineasta anti-roteiro -, que é o de Roberto Rossellini. Os três compõem uma espécie de tríade do cinema liberador do cinema, isto é, que buscava escapar das amarras do classicismo.
O detalhamento do roteiro não impede, no entanto, nem o improviso, o contato com as descobertas imediatas da filmagem, nem a contribuição dos atores (a de Luiz Linhares parece decisiva em vários momentos) e menos ainda mudanças entre o concebido originalmente e o realizado (num show de boate, pede-se José Mojica Marins fazendo um número de mágica, ali onde se viu Roberto Luna cantando – a mudança, não importa, o motivo, beneficiou o filme, já que evitou a auto-referência cinematográfica).
O Bandido parece, por seu texto, ter um caminho pré-estabelecido: distanciar-se do Cinema Novo. Não apenas de certo academismo cinema-novista, que naquele momento já se insinuava, mas do que ele criara de mais produtivo, por exemplo, a ideia de um cinema terceiro-mundista. 
Não que Sganzerla não a reconheça, nem perceba muito bem tudo que ela trouxe. Mas seu olhar é outro. O Terceiro Mundo vai explodir. O Terceiro Mundo não presta. O Terceiro Mundo não é uma parte do mundo, é uma anomalia. Se Glauber Rocha estabelecera as bases de um cinema político, de transformação, o momento seguinte (e que marcará a geração que surge no final dos anos 60 e sucede a do Cinema Novo) se caracteriza pela pouca esperança. Ou por um ruidoso niilismo, como a perceber os caminhos barrados por tudo que começava a ser despejado sobre ela, a começar pela repressão política, com todos os seus reflexos intelectuais e existenciais.
Em face disso, O Bandido se debate, convocando todos os meios à disposição: as imagens oblíquas, os sons estridentes, a locutora cafona, as manchetes sensacionalistas. O Bandido se debate como RG: convocando a metrópole ao sobressalto, revelando sua estranha vitalidade, as contradições gritantes, a boçalidade, a ignorância, a beleza, o conservadorismo, as impossibilidades. 
Este é um filme em que as potencialidades cinematográficas, sua originalidade de olhar, emergem já no texto, embora o texto depois vá se transformar, pois, embora preciso, parece aberto à improvisação, ao aproveitamento das circunstâncias do momento ou até aos impasses da produção. 
Que isso não sirva, no entanto, para confundir. O Bandido não é um monumento, não é obra para ser preservada em naftalina. É filme, como dizia RG na época, para ser visto num poeira e depois esquecido. Hoje talvez seja possível acrescentar: esquecido e depois revisto, lembrado e fruído como obra viva, visível, que ainda hoje nos interroga. A leitura deste roteiro é, sem dúvida, um instrumento a mais, muito especial, na tarefa sempre agradável de conhecer esta obra maior.

Disponível em: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=170

Um comentário: