quarta-feira, 5 de junho de 2013

Crítica: Cidade de Deus

Por José Geraldo Couto para a Folha de S. Paulo, 07/09/2002.
(Cidade de Deus, BRA, 2002)

Drama
Direção: Fernando Meirelles, Kátia Lund
Elenco
Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Alice Braga
RoteiroPaulo Lins (romance), Bráulio Mantovani
Duração: 130 min.








IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0317248/
Assista ao Trailer: YouTube

[BluRay-RiP 720p] - Download
  • Tamanho: 791 MiB (MP4) 
  • Idioma do Audio: Português
  • Legendas: Sem legenda 
  • Resolução: 1280 x 692

Cidade de Deus questiona produção nacional* 

Cidade de Deus é um filme-marco não apenas pela discussão que suscita em torno de seus temas (favela, violência, juventude, drogas), mas por colocar em debate - e de certo modo em crise - o próprio cinema brasileiro.
Muitas das críticas que a fita de Fernando Meirelles e Kátia Lund vem recebendo são legítimas.
Do ponto de vista político, por exemplo, pode-se questionar a apresentação da favela como um espaço de violência fechado em si mesmo, como se a droga fosse produzida e consumida toda lá dentro e o resto da sociedade não tivesse nada a ver com o tráfico.
Invertendo o dito popular, o filme parece dizer: "Eles são pretos, eles que se desentendam". Nesse sentido, o contraponto natural seria O Invasor, de Beto Brant, cuja conclusão é: "Estamos todos no mesmo barco".
Do ponto de vista sociológico, pode-se condenar - como a antropóloga Alba Zaluar - a proporção falsa entre negros e brancos na favela. Do ponto de vista moral, a exposição de crianças a situações de extrema brutalidade.
Pode-se ainda criticar a adoção de fórmulas narrativas do filme de ação americano, destinadas a garantir a identificação do espectador com os bandidos "do bem", contra os "do mal".
O que não se pode, porém, é dizer que se trata de um filme ruim, e muito menos rejeitá-lo em bloco sob o argumento de que estetiza a miséria, configurando uma "cosmética da fome".
Esse rótulo foi um achado da pesquisadora Ivana Bentes para caracterizar uma leva de filmes edulcorados e publicitários que passeiam como turistas pelas mazelas sociais do país. Mas hoje a expressão tende mais a esconder do que a revelar os traços da produção cinematográfica recente.
Cidade de Deus, a despeito de sua composição, digamos, "estilosa", tem pouco a ver com essa estética (ou cosmética).
Visto sem antolhos, é um filme de vigor espantoso e de extrema competência narrativa. Seus grandes trunfos são o roteiro engenhosamente construído (sim, à maneira americana, sem gorduras nem pontos sem nó) e a consistência da mise-en-scène.
Não há, que eu me lembre, uma única cena frouxa ou malfeita em "Cidade de Deus", nem tampouco um diálogo que soe pobre ou artificial. Se existe alguma redundância e autocomplacência, ela está na narração em off.
A atuação do elenco como um todo eleva a interpretação cinematográfica no Brasil a um novo patamar. É a culminância de um processo iniciado em Pixote e que teve outro momento alto em Bicho de Sete Cabeças. Nada a ver com teatro ou televisão.
Nesse aspecto ocorre algo curioso. Ao constituir seu elenco com semi-amadores oriundos das favelas, Meirelles incorporou ao próprio modo de produção de Cidade de Deus algo que é cobrado do filme: a apresentação de alternativas positivas para os jovens das comunidades faveladas.
Todas essas conquistas - sem falar da hábil assimilação de técnicas da publicidade e do videoclipe com propósitos narrativos essencialmente cinematográficos - correm o risco de ser obscurecidas por uma reação defensiva e ressentida, armada com o slogan "cosmética da fome".

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/critica/ult569u898.shtml

Nenhum comentário:

Postar um comentário