(Fight Club, USA/DEU, 1999)
Drama, Suspense
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter
Roteiro: Chuck Palahniuk (romance), Jim Uhls
Duração: 139 min.
Elenco: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter
Roteiro: Chuck Palahniuk (romance), Jim Uhls
Duração: 139 min.
[BluRay-RiP 720p] - Download
- Tamanho: 548 MiB (MKV)
- Idioma do Audio: Inglês
- Legendas: Anexa ao Post (PT-BR)
- Resolução: 976 x 416
Clube da Luta anuncia excremento para a América*
Entro no cinema com minha filha Juliana, para ver o Clube da Luta, de David Fincher.
- Pai, esse filme não é muito violento?
- Estão dizendo que é genial. Falam que é uma paródia incrível, uma "violência crítica". Deve ser bom...
Duas horas depois, saio do cinema com uma mistura de angústia e sensação de vítima de "conto-do-vigário". Juliana, estudante de ciências sociais, me dá candidamente a chave da encrenca da arte atual:
- Pai, você achou que esse filme era paródico. O problema é que a paródia ficou impossível. Não há mais o que criticar. A paródia dependia da esperança por uma "outra" realidade.
É isso. Esse filme é um sintoma. Sintoma de uma doença grave para a qual, talvez, nunca haverá cura. Nome da doença? "Turbocapitalismo corporativo", "imutabilidade estrutural eterna", "uniformização geral das consciências".
Como aquele absurdo oportunista do Oliver Stone, o Natural Born Killers e coisas virtuais como Matrix, esse Clube da Luta também se finge de "paródia" para nos convencer de que o capitalismo estaria se autocriticando, no pleno exercício da democracia liberal.
Sem paranoias conspiratórias pois, afinal, "it is only rock'n'roll", este filme me leva a pensar: em que "bode preto" estará metido o futuro cultural do USA e, por extensão, o nosso? O Clube da Luta é um indício assustador de que algo de grave vai acontecer à América. Acho que o totalitarismo embutido na democracia liberal, como previu Tocqueville, está se configurando.
Vejo se esvanecer a maior beleza da América, que sempre foi sua enorme capacidade de se auto-reformar. Como já vimos a América mudar! Os negros, as mulheres, o pós-Vietnã, os hippies, a sexualidade, o aumento da tolerância cultural. Isso acabou. A antiga dinâmica democrática de auto-aperfeiçoamento está sendo detida pela lógica corporativa e totalitária do mercado. Se for o caso, quanto de tragédia será necessária para que os movimentos democráticos possam refazer uma sociedade americana menos obsessiva, menos submetida ao inferno de um conformismo de formigas? Isso ainda será possível?
Talvez não, pois há um fato grave.
Nesta época pós-moderna ("argghh!"), um "big brother" capitalista de mil olhos se apossou de uma nova mercadoria: a liberdade. Explico-me: a América corporativa se apossou do "criticismo" e fetichizou-o também. Uma "crítica de mercado" virou a arma para a paralisia crítica. Esta é a suprema camuflagem do capitalismo: a liberdade.
Por ela, ele se auto-regula e se perpetua em sua terrível doença unidimensional, funérea, explodindo de vez em quando em massacres escolares, em psicopatias espontâneas, anúncio de loucuras mais graves, mais coletivas, que virão. Quem já morou em NY e viu de perto aquela formação de formigas angustiadas e obstinadas, quem já sentiu o descompasso da extrema opulência e da potência científica, comparadas ao baixo mecanicismo da vida social, quem já viu a tristeza dos ternos cinzentos marchando pelas ruas, quem já viu a estreita margem do amor e do sexo, o raro espaço para o ócio, para a fruição de uma "inutilidade" cultural qualquer sabe do terror oculto sob a face vitoriosa da única potência do mundo atual. Nada que seja docemente inútil é permitido. E aquela população de mercadores produtivos, de ordeiros escravos militantes tem um misto de orgulho e ódio de suas vidas e de seu país. Não é a toa que, de tempo em tempo, o cinema americano destrói Nova York, com volúpia, nos "filmes-catástrofes". Pensem em Independence Day, em Godzilla, em Armagedon, em Deep Impact, tantos. Toda hora o Empire State cai. Longe vai o tempo de filmes já "românticos" como o clássico Blade Runner, uma das últimas tentativas de se parodizar o fim da utopia liberal. Blade Runner, perto deste Clube da Luta, é um ingênuo manifesto humanista, clamando pelo amor, pela ecologia, contra a robotização da vida humana.
Hoje, todos os símbolos de revolta já foram fetichizados. O main stream da indústria cultural lança filmes cult e underground programados com todos os simbolozinhos de antigas revoltas: roupas punk, ambientes derrubados, heróis solitários contra a caretice dos executivos, linguagem desabrida, barbas por fazer, jeans, piercing, triste cinismo beat-chic. E tudo sob controle de Hollywood.
Hoje, a lógica da América corporativa é a única detentora de um discurso coerente, as corporações são as proprietárias da única "grande narrativa" ainda permitida. E, no entanto, elas nos convidam a um "pensar" fragmentário e "moderno", do mesmo jeito que nos incitam ao mercado aberto, mantendo para si um protecionismo radical.
Pela lógica, não deveria haver liberdade de expressão na América de hoje, mas a liberdade é útil para permitir a eclosão de espasmos de revolta que possam ser cooptados ou esmagados. O capitalismo se autocrítica para poder se reafirmar. A liberdade de expressão é seu supremo artifício. Quanta coisa maravilhosa a América já nos deu - dos Boeings aos antibióticos, a música, o cinema, tantas coisas... Mas, hoje, o que nos dá, além da arrogância de potência única? Será que o fúnebre mercado corporativo fechou suas garras para sempre? Será que haverá espaço para uma "flexibilização" (como eles dizem) da democracia americana? Só um grande movimento, um forte woodstock nas almas, um novo jazz de esperança poderia trazer isso: uma arte de viver desejada por Nietzsche e que está aí, dando sopa nas tecnologias de ponta. Mas, infelizmente, é mais provável que aconteça algo que o filme Clube da Luta prefigura, como David Fincher já anunciava em Seven: um amor "anal" pela morte.
Não creio que será um neofascismo, mas algo muito estranho e novo, como já disse Norman Mailer há quarenta anos: "A shitstorm is coming". Algo esquisito está sendo urdido dentro do intestino do capitalismo: a merda como meta.
* Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0211199922.htm
Entro no cinema com minha filha Juliana, para ver o Clube da Luta, de David Fincher.
- Pai, esse filme não é muito violento?
- Estão dizendo que é genial. Falam que é uma paródia incrível, uma "violência crítica". Deve ser bom...
Duas horas depois, saio do cinema com uma mistura de angústia e sensação de vítima de "conto-do-vigário". Juliana, estudante de ciências sociais, me dá candidamente a chave da encrenca da arte atual:
- Pai, você achou que esse filme era paródico. O problema é que a paródia ficou impossível. Não há mais o que criticar. A paródia dependia da esperança por uma "outra" realidade.
É isso. Esse filme é um sintoma. Sintoma de uma doença grave para a qual, talvez, nunca haverá cura. Nome da doença? "Turbocapitalismo corporativo", "imutabilidade estrutural eterna", "uniformização geral das consciências".
Como aquele absurdo oportunista do Oliver Stone, o Natural Born Killers e coisas virtuais como Matrix, esse Clube da Luta também se finge de "paródia" para nos convencer de que o capitalismo estaria se autocriticando, no pleno exercício da democracia liberal.
Sem paranoias conspiratórias pois, afinal, "it is only rock'n'roll", este filme me leva a pensar: em que "bode preto" estará metido o futuro cultural do USA e, por extensão, o nosso? O Clube da Luta é um indício assustador de que algo de grave vai acontecer à América. Acho que o totalitarismo embutido na democracia liberal, como previu Tocqueville, está se configurando.
Vejo se esvanecer a maior beleza da América, que sempre foi sua enorme capacidade de se auto-reformar. Como já vimos a América mudar! Os negros, as mulheres, o pós-Vietnã, os hippies, a sexualidade, o aumento da tolerância cultural. Isso acabou. A antiga dinâmica democrática de auto-aperfeiçoamento está sendo detida pela lógica corporativa e totalitária do mercado. Se for o caso, quanto de tragédia será necessária para que os movimentos democráticos possam refazer uma sociedade americana menos obsessiva, menos submetida ao inferno de um conformismo de formigas? Isso ainda será possível?
Talvez não, pois há um fato grave.
Nesta época pós-moderna ("argghh!"), um "big brother" capitalista de mil olhos se apossou de uma nova mercadoria: a liberdade. Explico-me: a América corporativa se apossou do "criticismo" e fetichizou-o também. Uma "crítica de mercado" virou a arma para a paralisia crítica. Esta é a suprema camuflagem do capitalismo: a liberdade.
Por ela, ele se auto-regula e se perpetua em sua terrível doença unidimensional, funérea, explodindo de vez em quando em massacres escolares, em psicopatias espontâneas, anúncio de loucuras mais graves, mais coletivas, que virão. Quem já morou em NY e viu de perto aquela formação de formigas angustiadas e obstinadas, quem já sentiu o descompasso da extrema opulência e da potência científica, comparadas ao baixo mecanicismo da vida social, quem já viu a tristeza dos ternos cinzentos marchando pelas ruas, quem já viu a estreita margem do amor e do sexo, o raro espaço para o ócio, para a fruição de uma "inutilidade" cultural qualquer sabe do terror oculto sob a face vitoriosa da única potência do mundo atual. Nada que seja docemente inútil é permitido. E aquela população de mercadores produtivos, de ordeiros escravos militantes tem um misto de orgulho e ódio de suas vidas e de seu país. Não é a toa que, de tempo em tempo, o cinema americano destrói Nova York, com volúpia, nos "filmes-catástrofes". Pensem em Independence Day, em Godzilla, em Armagedon, em Deep Impact, tantos. Toda hora o Empire State cai. Longe vai o tempo de filmes já "românticos" como o clássico Blade Runner, uma das últimas tentativas de se parodizar o fim da utopia liberal. Blade Runner, perto deste Clube da Luta, é um ingênuo manifesto humanista, clamando pelo amor, pela ecologia, contra a robotização da vida humana.
Hoje, todos os símbolos de revolta já foram fetichizados. O main stream da indústria cultural lança filmes cult e underground programados com todos os simbolozinhos de antigas revoltas: roupas punk, ambientes derrubados, heróis solitários contra a caretice dos executivos, linguagem desabrida, barbas por fazer, jeans, piercing, triste cinismo beat-chic. E tudo sob controle de Hollywood.
Hoje, a lógica da América corporativa é a única detentora de um discurso coerente, as corporações são as proprietárias da única "grande narrativa" ainda permitida. E, no entanto, elas nos convidam a um "pensar" fragmentário e "moderno", do mesmo jeito que nos incitam ao mercado aberto, mantendo para si um protecionismo radical.
Pela lógica, não deveria haver liberdade de expressão na América de hoje, mas a liberdade é útil para permitir a eclosão de espasmos de revolta que possam ser cooptados ou esmagados. O capitalismo se autocrítica para poder se reafirmar. A liberdade de expressão é seu supremo artifício. Quanta coisa maravilhosa a América já nos deu - dos Boeings aos antibióticos, a música, o cinema, tantas coisas... Mas, hoje, o que nos dá, além da arrogância de potência única? Será que o fúnebre mercado corporativo fechou suas garras para sempre? Será que haverá espaço para uma "flexibilização" (como eles dizem) da democracia americana? Só um grande movimento, um forte woodstock nas almas, um novo jazz de esperança poderia trazer isso: uma arte de viver desejada por Nietzsche e que está aí, dando sopa nas tecnologias de ponta. Mas, infelizmente, é mais provável que aconteça algo que o filme Clube da Luta prefigura, como David Fincher já anunciava em Seven: um amor "anal" pela morte.
Não creio que será um neofascismo, mas algo muito estranho e novo, como já disse Norman Mailer há quarenta anos: "A shitstorm is coming". Algo esquisito está sendo urdido dentro do intestino do capitalismo: a merda como meta.
* Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0211199922.htm

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